Ululante Lú

Archive for abril 2010

Minhas verborrágicas impressões sobre a enchente no Rio de Janeiro

Rio de Janeiro. Dia  05/04/2010. 17h . Começa a  chover.  Desisto de ir para um  curso que queria fazer. Um  amigo  em Santos diz que por lá  chove muito, eu digo que no Rio    também, mas nada fora da  normalidade. A chuva aperta    um pouco, mas para mim é um  típico início de Abril  chuvoso,  as tais águas de março  atrasadas. Eu no meu  esquema  “online fulltime” começo a  perceber algo  estranho no  mundo virtual, primeiro os  amigos e as  celebridades no  twitter que começam a relatar  as  dificuldades para chegar em  casa, depois meu pai que  levou  2h30 para voltar do trabalho,  uma hora a mais que o  normal.  Os sites de hardnews começam  a noticiar as  consequências no  trânsito de alguns pontos  alagados. Até  aí me pareceu  uma chuva um pouco mais forte, com alguns  pontos de alagamento e que acabou dando um nó no  trânsito, normal… Durmo.

Rio de Janeiro. DIa 06/04/2010. 7h30. Minha mãe me acorda  me chamando para ver algo na TV.  Quando chego na sala a imagem é de Caos, a Lagoa Rodrigo de Freitas tentou voltar a sua forma original e invadiu as ruas com um água barrenta. Corro para a internet , o primeiro tweet é de um amigo que diz ter levado 13h30 da Glória à Tijuca. Os sites de Notícias já noticiam 13 mortos, a maior chuva em 30 anos . Na TV Ana Maria Braga improvisa um programa com diretor de som fazendo ás vezes de câmera , e ao chamar o jornalismo acaba deixando o próprio programa de lado. MEU DEUS o que aconteceu com minha cidade enquanto eu dormia???? Dá para ter uma idéia pela minha piscina , quando fui dormir ela estava na metade e agora já está cheia- e é uma piscina grande-  De repente meu pai entra na sala trazendo pão quentinho…não foi trabalhar recomendação do prefeito: NÃO SAIAM DE CASA . As mortes continuaram aumentando , principalmente em Niterói. No inicio da tarde já eram mais de 20. Eu ainda não conseguindo acreditar, frustrada por não poder sair de casa. Volto a internet e começo a ajudar amigos de São Paulo que precisam urgente de fontes e dados do Rio, na busca pelas informações ligo para amigos nas redações cariocas e percebo que a coisa está realmente feia. As fotos disponíveis da tragédia são chocantes. Praticamente não reconheço a cidade que conheço tão bem. Passo o dia inteiro conectada, sem descanso. A chuva não para. Às 23h um estrondo forte e acaba a luz, o modem 3G não funciona. DESCONECTADA, me mantenho tranquila , sem problemas, tento me enganar que não preciso disso…Durmo

Rio de Janeiro. Dia 07/04/2010. 10h . Acordo . Dormi mal, a luz não voltou e não tem previsão de voltar tão cedo. Minha mãe me faz uma oferta: ir para a casa da minha vó onde tem luz. Aceito na hora, preciso saber! O que aconteceu,? O que está acontecendo ? Como está a cidade? Quantos mortos? Mais enchente? As aulas foram retomadas? Quando chego na casa da minha vó já são 102 os mortos. No meio da tarde, quase noite desmorona outro morro em Niterói , aproximadamente 40 casas são soterradas. A frustração dá lugar a compaixão… tudo porque eu estava CONECTADA e vi a tragédia em tempo real.   Decidido, amanhã vou juntar uns amigos e vou no Supermercado comprar água, leite em pó, todynho, biscoito, sabonete e vou deixar em algum ponto indicado pela defesa civil. Mas a vontade é de abrir as portas de casa e abrigar algumas das 14 mil pessoas desabrigadas.

Rio de Janeiro. Dia 08/04/2010. 4:05. Choveu mais essa noite. Espero que com o nascer do Sol as coisas estejam mais calmas e menos trágicas…Espero…

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Nos últimos três meses em que fiquei entre Rio e  São Paulo  eu andei muito de táxi,. Ás vezes porque  voltava de madrugada e o ônibus para casa já tinha  parado de passar há muito tempo, outras porque eu  não conhecia São Paulo suficientemente bem para  me aventurar nas ruas que mudam de nome e linhas  de ônibus que parecem mais uma sopa de letrinhas,  e muitas vezes por pura preguiça mesmo.

No Rio meu meio de transporte é o ônibus, é  irritante , muitas vezes está lotado, mas também é  uma delicia. Eu sou dessas pessoas que dá papo  para qualquer um (e meus interlocutores de viagem  parecem notar isso) já ouvi tanta história triste e inusitada no trajeto faculdae- trabalho- casa que poderia escrever um livro ( se eu lembrasse de todas) . Em São Paulo o pessoal não se abria com essa facilidade no ônibus,e foi com os taxistas que eu me realizei, embora sempre fosse eu a tomar a iniciativa no papo.

“Nossa que bairro bonito! Como chama?” “Nossa aqui todo taxi tem GPS né?” “ Nossa moço você não tem GPS???” “E a chuva hein moço” E por aí vai, perguntava ou exclamava qualquer coisa para puxar papo. Descobri muito sobre São Paulo com os taxistas , como a reestruturação na engenharia de trânsito da via que leva até o aeroporto de congonhas, que os casarões às margens da Avenida Brasil só podem ser alugados ou vendidos para empreendimentos comerciais, as residenciais começam nas paralelas, entre o comercio o local onde funcionava a concessionária de carros de luxo de Juan Cárlos Abadia , o megatraficante colombiano.

O taxista que me contou tudo isso foi seu João, também conhecido como Careca, o taxi é comum, mas ele sempre fica no ponto em frente ao Mercure da Capote Valente. De todos os taxistas de São Paulo foi o mais correto me deu notinha e explicou que lá tinham todas as informações da corrida , o preço, a hora que entrei  no táxi, a hora que ele parou o taxímetro e o telefone caso eu retornasse a São Paulo.

Um outro taxista que faz ponto no Formule 1 da Consolação quase me convenceu a entrar para a profissão.  Ele formado em engenharia mecatrônica  desistiu de um emprego onde ganhava R$3 mil para faturar mais de R$ 5 mil com o táxi, e olha que ele  tem como opção não trabalhar a noite o turno diário dele não dura mais 12 horas.

Virar taxista em São Paulo não é lá muito fácil . É preciso ter um Condutax e um alvará de estacionamento, mas não é sempre que a prefeitura concede esses beneficios., atualmente com 32 mil alvarás ativos, a administração municipal entende que a demanda de passageiros está sendo suprida. Quando abertas as inscrições para obtenção do registro o  “futuro” taxista ainda deve cumprir uma série de exigências , dentre elas um curso de preparação para taxista que  dura uma semana

Todo esse rigor e fiscalização acabam permitindo uma maior diversidade entre os motoristas. Em São Paulo é muito comum ver taxistas mulheres como a Evelene, que trabalha ˙com o táxi há 5 anos. Eve está sempre maquiada, resquícios de quando era consultora da Natura em tempo integral (hoje ela concilia a atividade com o táxi) . Ela optou pela profissão para ficar mais tempo com os filhos pequenos, ela e o marido , que também é taxista, revezam os turnos e não trabalham a noite. Eve só reclama do trânsito e quando pergunto se ela trocaria o táxi por um escritório ela responde rindo “ De jeito nenhum!”

Por enquanto eu ainda vou insistir no jornalismo, mas depois de tanto conversar com os taxistas , até que não seria uma má idéia …


Tagarela

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Luísa Ferreira

Jornalista, carioca da gema que mora em São Paulo.

E-mail: lumferreira@gmail.com
Twitter: @luisamferreira