Ululante Lú

Archive for the ‘Velharia’ Category

Todo mundo diz que as adaptações cinematográficas de obras literárias sempre deixam a desejar. Eu não sou do time que generaliza, gostei de “Cegueira” , de fato algumas partes do livro foram descartadas, mas como filme não me faltou nada. É preciso entender que logo no inicio do filme já se diz é uma ADAPTAÇÃO , portanto o filme é o filme e o livro é o livro. Ponto. Nessa onda posso citar aindaMemórias Póstumas de Brás Cubas. O livro é a minha obra preferida de Machado, e o filme ( ainda que a produção seja bem ruinzinha) é ótimo, quando assisti parecia quase uma outra história, até porque para fazer um filme que eu ache extremamente coerente tem que ser baseado nas minhas interpretações e não nas do André Klotzel ( diretor do filme ).

Mas toda essa introduçãozinha foi só para firmar um ponto de vista e uma critica a quem se acha espertão quando diz que o filme não chega aos pés do livro. A questão é que há filmes adaptados que me fazem querer ler os livros , foi assim com os filmes adaptados nos livros de Nick Hornby . Há também os filmes que nos fazem querer reler livros. Foi o que aconteceu com Quincas Berro D’água ( Aêêê cheguei no objetivo do post no meio do segundo parágrafo. É blog não é notícia mesmo…) . Graças a um “primo” insider da indústria cinematográfica brasileira fui a pré- estréia do filme de Sérgio Machado nesta terça (04). O longa é ótimo! Bons atores, bom enredo ( ainda que as história seja bem amalucada) , engraçadíssimo. De Sérgio Machado , diretor de Cidade Baixa , não podia se esperar menos. A fotografia de Toca Seabra está ( na minha humilde opinião) impecável. Mas o que me intrigou mesmo foi o livro que deu origem ao filme.

Li A morte e a morte de Quincas Berro D’Água quando tinha uns 12 anos, achei numa estante em casa e resolvi ler, lembro que gostei, hoje percebo que não entendi. Já dizia uma professora de literatura minha que certos livros são feitos para se ler a partir de uma certa idade , Quincas é um desses casos. Não consegui identificar nada do livro no filme, só o enredo mais básico e a “re-morte”. Agora estou na curiosidade. Será que consigo captar a essência popular e baiana de Jorge Amado , que tanto me encantaram em Capitães de Areia ? A essência que Sérgio Machado conseguiu traduzir fantásticamente ( deve ser porque ele é baiano, assim como boa parte do elenco) . Bom agora só depende de mim ir atrás de uma cópia do livro pelos sebos do Centro do Rio, já que o exemplar aqui de casa foi emprestado e nunca retornou.

Obs: A dedicatória à Zélia Gattai no final do filme é de uma delicadeza….
Obs2: O filme estréia dia 21

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Minhas verborrágicas impressões sobre a enchente no Rio de Janeiro

Rio de Janeiro. Dia  05/04/2010. 17h . Começa a  chover.  Desisto de ir para um  curso que queria fazer. Um  amigo  em Santos diz que por lá  chove muito, eu digo que no Rio    também, mas nada fora da  normalidade. A chuva aperta    um pouco, mas para mim é um  típico início de Abril  chuvoso,  as tais águas de março  atrasadas. Eu no meu  esquema  “online fulltime” começo a  perceber algo  estranho no  mundo virtual, primeiro os  amigos e as  celebridades no  twitter que começam a relatar  as  dificuldades para chegar em  casa, depois meu pai que  levou  2h30 para voltar do trabalho,  uma hora a mais que o  normal.  Os sites de hardnews começam  a noticiar as  consequências no  trânsito de alguns pontos  alagados. Até  aí me pareceu  uma chuva um pouco mais forte, com alguns  pontos de alagamento e que acabou dando um nó no  trânsito, normal… Durmo.

Rio de Janeiro. DIa 06/04/2010. 7h30. Minha mãe me acorda  me chamando para ver algo na TV.  Quando chego na sala a imagem é de Caos, a Lagoa Rodrigo de Freitas tentou voltar a sua forma original e invadiu as ruas com um água barrenta. Corro para a internet , o primeiro tweet é de um amigo que diz ter levado 13h30 da Glória à Tijuca. Os sites de Notícias já noticiam 13 mortos, a maior chuva em 30 anos . Na TV Ana Maria Braga improvisa um programa com diretor de som fazendo ás vezes de câmera , e ao chamar o jornalismo acaba deixando o próprio programa de lado. MEU DEUS o que aconteceu com minha cidade enquanto eu dormia???? Dá para ter uma idéia pela minha piscina , quando fui dormir ela estava na metade e agora já está cheia- e é uma piscina grande-  De repente meu pai entra na sala trazendo pão quentinho…não foi trabalhar recomendação do prefeito: NÃO SAIAM DE CASA . As mortes continuaram aumentando , principalmente em Niterói. No inicio da tarde já eram mais de 20. Eu ainda não conseguindo acreditar, frustrada por não poder sair de casa. Volto a internet e começo a ajudar amigos de São Paulo que precisam urgente de fontes e dados do Rio, na busca pelas informações ligo para amigos nas redações cariocas e percebo que a coisa está realmente feia. As fotos disponíveis da tragédia são chocantes. Praticamente não reconheço a cidade que conheço tão bem. Passo o dia inteiro conectada, sem descanso. A chuva não para. Às 23h um estrondo forte e acaba a luz, o modem 3G não funciona. DESCONECTADA, me mantenho tranquila , sem problemas, tento me enganar que não preciso disso…Durmo

Rio de Janeiro. Dia 07/04/2010. 10h . Acordo . Dormi mal, a luz não voltou e não tem previsão de voltar tão cedo. Minha mãe me faz uma oferta: ir para a casa da minha vó onde tem luz. Aceito na hora, preciso saber! O que aconteceu,? O que está acontecendo ? Como está a cidade? Quantos mortos? Mais enchente? As aulas foram retomadas? Quando chego na casa da minha vó já são 102 os mortos. No meio da tarde, quase noite desmorona outro morro em Niterói , aproximadamente 40 casas são soterradas. A frustração dá lugar a compaixão… tudo porque eu estava CONECTADA e vi a tragédia em tempo real.   Decidido, amanhã vou juntar uns amigos e vou no Supermercado comprar água, leite em pó, todynho, biscoito, sabonete e vou deixar em algum ponto indicado pela defesa civil. Mas a vontade é de abrir as portas de casa e abrigar algumas das 14 mil pessoas desabrigadas.

Rio de Janeiro. Dia 08/04/2010. 4:05. Choveu mais essa noite. Espero que com o nascer do Sol as coisas estejam mais calmas e menos trágicas…Espero…

Nos últimos três meses em que fiquei entre Rio e  São Paulo  eu andei muito de táxi,. Ás vezes porque  voltava de madrugada e o ônibus para casa já tinha  parado de passar há muito tempo, outras porque eu  não conhecia São Paulo suficientemente bem para  me aventurar nas ruas que mudam de nome e linhas  de ônibus que parecem mais uma sopa de letrinhas,  e muitas vezes por pura preguiça mesmo.

No Rio meu meio de transporte é o ônibus, é  irritante , muitas vezes está lotado, mas também é  uma delicia. Eu sou dessas pessoas que dá papo  para qualquer um (e meus interlocutores de viagem  parecem notar isso) já ouvi tanta história triste e inusitada no trajeto faculdae- trabalho- casa que poderia escrever um livro ( se eu lembrasse de todas) . Em São Paulo o pessoal não se abria com essa facilidade no ônibus,e foi com os taxistas que eu me realizei, embora sempre fosse eu a tomar a iniciativa no papo.

“Nossa que bairro bonito! Como chama?” “Nossa aqui todo taxi tem GPS né?” “ Nossa moço você não tem GPS???” “E a chuva hein moço” E por aí vai, perguntava ou exclamava qualquer coisa para puxar papo. Descobri muito sobre São Paulo com os taxistas , como a reestruturação na engenharia de trânsito da via que leva até o aeroporto de congonhas, que os casarões às margens da Avenida Brasil só podem ser alugados ou vendidos para empreendimentos comerciais, as residenciais começam nas paralelas, entre o comercio o local onde funcionava a concessionária de carros de luxo de Juan Cárlos Abadia , o megatraficante colombiano.

O taxista que me contou tudo isso foi seu João, também conhecido como Careca, o taxi é comum, mas ele sempre fica no ponto em frente ao Mercure da Capote Valente. De todos os taxistas de São Paulo foi o mais correto me deu notinha e explicou que lá tinham todas as informações da corrida , o preço, a hora que entrei  no táxi, a hora que ele parou o taxímetro e o telefone caso eu retornasse a São Paulo.

Um outro taxista que faz ponto no Formule 1 da Consolação quase me convenceu a entrar para a profissão.  Ele formado em engenharia mecatrônica  desistiu de um emprego onde ganhava R$3 mil para faturar mais de R$ 5 mil com o táxi, e olha que ele  tem como opção não trabalhar a noite o turno diário dele não dura mais 12 horas.

Virar taxista em São Paulo não é lá muito fácil . É preciso ter um Condutax e um alvará de estacionamento, mas não é sempre que a prefeitura concede esses beneficios., atualmente com 32 mil alvarás ativos, a administração municipal entende que a demanda de passageiros está sendo suprida. Quando abertas as inscrições para obtenção do registro o  “futuro” taxista ainda deve cumprir uma série de exigências , dentre elas um curso de preparação para taxista que  dura uma semana

Todo esse rigor e fiscalização acabam permitindo uma maior diversidade entre os motoristas. Em São Paulo é muito comum ver taxistas mulheres como a Evelene, que trabalha ˙com o táxi há 5 anos. Eve está sempre maquiada, resquícios de quando era consultora da Natura em tempo integral (hoje ela concilia a atividade com o táxi) . Ela optou pela profissão para ficar mais tempo com os filhos pequenos, ela e o marido , que também é taxista, revezam os turnos e não trabalham a noite. Eve só reclama do trânsito e quando pergunto se ela trocaria o táxi por um escritório ela responde rindo “ De jeito nenhum!”

Por enquanto eu ainda vou insistir no jornalismo, mas depois de tanto conversar com os taxistas , até que não seria uma má idéia …

Nesses 22 anos e 4 meses que eu marco presença  nesse planeta – contando os 9 meses dentro do útero  de mamãe – já visitei um incontável número de  cidades , tanto no Brasil quanto no exterior, mas  nunca fui a Nova York . Mesmo assim tenho um  plano maluco para minha vida.

Eis o plano: Apenas 3 anos separam a data da  minha formatura (28/01/2010) da minha partida  por tempo indefinido para N.Y. O que eu vou fazer em  Nova York? Ainda não sei bem responder assim no geral, talvez um mestrado, trabalhar … O que eu vou fazer especificamente em N.Y? Tentar ver, ouvir, sentir os lugares, os sons, os cheiros que J.D. Salinger – morto em janeiro de 2010- e Gay Talese – vivinho da silva- me fizeram sentir com os sentidos da mente lendo seus livros.

Era como se me transportassem para lá. Ás vezes eu penso que conheço mais Nova York do que um nova iorquino por causa das linhas desses grandes autores. Meu encontro com Salinger foi aos 13 anos , o protagonista Holden Caufield preparava a fuga de um dos colégios internos por que tinha passado, dessa vez ele fugiria antes de ser expulso como nos outros. O destino do jovem protagonista era Nova York. Por Salinger eu me apaixonei desde a primeira linha, por N.Y. assim que Holden desembarcou na Grand Central Station. A cidade vista pelos olhos e sensações de um jovem nova iorquino que retornava à cidade que amava depois de anos afastado arbitrariamente dali, me fascinou por completo. 6 anos depois reli o livro, já não era tão fascinante , eu já havia passado e superado muitos dos dilemas de Holden- muitas vezes com a ajuda dele – ,mas o encanto por N.Y. permaneceu intacto, as palavras me fascinaram mais uma vez.

Com Talese o encontro foi mais tardio aos 21 anos e deveria ser assim mesmo, a compreensão foi facilitada por ser mais próxima da minha realidade. A madrugada, o amanhecer, o entardecer e o anoitecer em NY descritos por ele criaram uma imagem fantástica da big apple na minha cabeça, ás vezes até tenho medo de me decepcionar com a cidade por idealiza-la tanto , embora ache impovável. Os prédios, as saídas dos bares, os personagens inusitados tudo no texto de Talese me encantou. Foi como se aquelas linhas impressas fossem alguém me guiando ao pé do ouvido por Nova York.

Dizem que todo mundo se apaixona por Nova York, assim como dizem o mesmo para quem vai ao Rio. Sendo carioca sou naturalmente apaixonada pela minha cidade, mas Machado de Assis me ajudou a apreciá-la ainda mais. No caso de N.Y. eu já vou para lá apaixonada e sabendo apreciar a cidade, graças a J.D. Salinger e Gay Talese.

Permitir-se novas experiências. É a premissa  básica de qualquer processo de amadurecimento.  Comigo não seria diferente.

Terminada a faculdade , novas perspectivas,  pontos de vista, idéias e porque não? experiências,  vem ao meu encontro a cada segundo. É quase que  uma caixa de Pandora que esperou 4 anos para  ser escancarada, recheada de conhecimento sobre  mim .

Eu, ávida por um novo começo e por me jogar no  desconhecido, tento absorver cada uma das idéias e experiências vindas dessa “caixa”

É paradoxal. No meu caminho para me tornar adulta – séria? – pareço uma criança atrás de bolhinhas de sabão . Estourando-as aleatoriamente. Eu quero, tento , e por vezes consigo, estourar as “bolhas” assim sem saber ao certo no que vai dar.Agir sem a cautela que sempre me perseguiu – a vida toda provavelmente- ,ainda me falta coragem, mas uma certeza eu tenho, o frasco com água e sabão está longe de acabar .


Tagarela

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Luísa Ferreira

Jornalista, carioca da gema que mora em São Paulo.

E-mail: lumferreira@gmail.com
Twitter: @luisamferreira